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A Vegetariana, Dafne e Adelina Gomes — quando virar planta é a única saída | Thayná Andrade

O que une um mito grego, o Nobel de Han Kang e uma pintora internada no Rio? A psicóloga junguiana Thayná Andrade analisa a metamorfose como resposta à violência

Tem uma cena que não me sai da cabeça desde que comecei a escrever este texto.


Psicologia junguiana feminismo


Adelina Gomes, internada no Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, dizia às vezes uma coisa muito simples: "eu queria ser flor."  Ela passou 47 anos dentro daquele hospital. Nesse tempo, produziu aproximadamente 17.500 obras. Quase todas com o mesmo tema: mulheres cujos corpos se fundiam a flores, a galhos, a vasos, a outras formas de vida vegetal.


A psiquiatria chamou isso de esquizofrenia.


Nise da Silveira chamou de Dafne.

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Dafne perseguida por Apolo, pintura de Giovanni Battista Tiepolo, 1744.


Mito de Dafne psicologia analítica


Deixa eu começar do mito, porque é onde tudo começa — embora a história de Dafne raramente seja contada a partir dela.


Dafne era filha de Gaia, a Mãe-Terra, e do deus-rio Ladão. Desde jovem, consagrou sua vida à Ártemis e escolheu a floresta, as ninfas, a caça — e a própria companhia. Não queria casamento. Não queria cidade. Não queria pertencer. Isso, num mundo grego, já era quase um ato de guerra.

Apolo a viu dos céus. Passou a observá-la. Armou uma cilada. E a perseguiu — um deus imortal contra uma mortal que havia escolhido viver de acordo com sua própria natureza. Quando ela sentiu o hálito dele no pescoço, quando percebeu que não havia saída física possível, ela não tentou negociar. Ela gritou para sua mãe: "Gaia, me engole." ¹


E a Terra abriu.


No lugar onde ela estivera, nasceu um loureiro. Apolo, frustrado, quebrou um galho daquela árvore e criou um ritual de coroar os maiores homens com ela. Por séculos, o corpo de Dafne decorou a cabeça de poetas, generais, imperadores. Isso raramente aparece nas versões que aprendemos.


O que me interessa não é a perseguição. É o que Dafne escolheu quando percebeu que não havia espaço — nem no mundo dos deuses, nem no mundo dos mortais — para existir nos seus próprios termos. A autonomia que não cabia no corpo humano, ela encontrou em outro reino.


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Han Kang não cita Dafne em nenhum momento de A Vegetariana (2007; publicado no Brasil em 2018). Não precisava.

Capa a vegetariana premio Nobel literatura
Capa A vegetariana Edição 2018

Yeonghye vive num casamento sufocante, num mundo que trata seu corpo como propriedade — do marido, do pai, da família, da sociedade. Ela para de comer carne. Aos poucos, começa a acreditar que está virando planta. Recusa roupas. Fica parada ao sol com os braços abertos, como raízes. A família a interna num hospital psiquiátrico.


Há um detalhe no livro que James Hillman apreciaria: Yeonghye não narra nenhuma parte da própria história. O marido narra a primeira parte. O cunhado, a segunda. A irmã, a terceira. Ela nunca tem voz dentro do livro que existe sobre ela. Assim como Dafne, cuja história chegou até nós filtrada pelos poetas, pelos filósofos, por Apolo.





Antes de parar de falar completamente, Yeonghye diz uma coisa: "Eu não quero machucar ninguém. Eu não quero ser machucada. Eu só quero ser uma planta." ²


Isso não é desvario. É a declaração mais lúcida possível de alguém que identificou — talvez sem ter palavras teóricas pra isso — que os humanos são seres que se ferem e ferem, e que a única saída que não perpetua a cadeia de violência é sair dela inteiramente. Virar outra coisa.

Volto a Adelina.


Nise da Silveira Adelina Gomes


Ela tinha 18 anos quando se apaixonou. A mãe não deixou. Ela internalizou aquela proibição de um jeito tão brutal que estrangulou a gata da casa — e foi parar no hospital com diagnóstico de esquizofrenia e autismo. Ficou internada por décadas, até que Nise da Silveira criou ateliês de pintura e escultura dentro do hospital e Adelina começou a produzir de forma compulsiva.

Nise não olhou para aquelas 17.500 obras e perguntou o que havia de errado com Adelina. Ela perguntou o que Adelina estava tentando dizer. E o que viu foi Dafne — uma mulher vivendo uma metamorfose vegetal porque não pôde viver seus instintos femininos no mundo real. ³

Isso é o que Nise fez de diferente. Mudou a pergunta.


Não "por que ela enlouqueceu?" Mas "o que ela precisaria ter tido para não precisar virar planta?"

pintura Adelina Gomes metamorfose vegetal Museu da Imagem do Inconsciente
Adelina Gomes S/t

Três mulheres. Três épocas completamente diferentes — a Grécia antiga, a Coreia do Sul contemporânea, o Rio de Janeiro do século XX. Três culturas que não se conversaram. E a mesma escolha.


Jung chamaria isso de inconsciente coletivo — a ideia de que certas imagens e padrões emergem em qualquer lugar onde existam seres humanos com as mesmas feridas não elaboradas. Não porque alguém copiou alguém, mas porque a psique encontra as mesmas soluções para os mesmos problemas quando os problemas são suficientemente antigos e suficientemente universais.


O problema, aqui, é específico: o que acontece com a subjetividade feminina quando ela não encontra nenhum espaço para existir — nem contra um masculino invasivo, nem num feminino que protege ao preço da regressão?


Subjetividade feminina violência psicologia


Clarissa Pinkola Estés escreveu, em Mulheres que Correm com os Lobos, sobre o instinto feminino selvagem, sobre o que acontece quando ele é domado, cortado, proibido. ⁴ Adelina não leu Estés. Yeonghye também não. Dafne existiu muito antes de qualquer uma. Mas as três chegaram ao mesmo lugar: o reino vegetal como terceira via. Não submissão. Não confronto direto impossível. Uma saída lateral. Outra forma de existência.

Adelina Gomes metamorfose vegetal no Museu da Imagem do Inconsciente
Adelina Gomes, S/t

As três perderam algo — a humanidade, a linguagem, a organização do ego. Mas as três também entraram em algo. Dafne virou loureiro e permaneceu. Yeonghye encontrou, na metamorfose, uma coerência que o mundo ao redor dela nunca teve. Adelina pintou 17.500 vezes o desejo de ser flor, e essas pinturas estão no Museu da Imagem do Inconsciente até hoje.

Talvez a metamorfose não seja só fuga.


Talvez seja a forma mais radical de recusar perder a si mesma.


Me pergunto, desde que comecei a escrever sobre isso, quantas Adelinas existiram sem ateliê. Sem Nise. Sem ninguém que soubesse perguntar diferente. Me pergunto o que teria sido possível se o espaço para existir tivesse existido antes.


E me pergunto se continuamos, enquanto sociedade, fazendo a pergunta errada.


Notas

¹ A versão do mito aqui utilizada é a de Partênio de Niceia (séc. I a.C.), na qual Dafne é filha de Gaia e do deus-rio Ladão, e sua transformação se dá pela intervenção direta da Mãe-Terra. Ovídio, nas Metamorfoses (8 d.C.), apresenta a versão mais conhecida no Ocidente, na qual é o rio Peneu quem opera a transformação. As diferenças entre as versões são elas mesmas reveladoras de quem narra.

² KANG, Han. A Vegetariana. Tradução de Yun Jung Im. São Paulo: Instante, 2018.

³ SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981. A análise do caso de Adelina Gomes e a formulação da "metamorfose vegetal" como paralelo ao mito de Dafne aparecem ao longo da obra da autora e foram aprofundadas por pesquisadoras do Museu da Imagem do Inconsciente. Ver também: MAGALDI, Ana. Adelina Gomes: a pintora que queria ser flor. Rio de Janeiro: Museu da Imagem do Inconsciente, 2018.

⁴ ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.


Para saber mais


Filmes e documentários


Nise: O Coração da Loucura (Roberto Berliner, 2015) — ficção baseada na vida de Nise da Silveira, com Glória Pires no papel principal. O filme reconstrói o período em que ela criou os ateliês no Engenho de Dentro e sua relação com os internos, entre eles Arthur Bispo do Rosário. Disponível em plataformas de streaming.


Nise da Silveira (documentário, 1995, direção de Sérgio Munteal) — registro mais próximo da própria Nise, em entrevistas e imagens do ateliê.


Apollo/Dafne — Ópera de Handel (diversas montagens disponíveis no YouTube) — a ópera barroca de 1709 narra o mito inteiro em cerca de 40 minutos. Curioso como a história muda dependendo da encenação — algumas colocam Dafne no centro, outras ainda a mantêm como coadjuvante da jornada de Apolo.


Livros


Han Kang — A Vegetariana (Instante, 2018) — o romance que inspirou parte deste texto. Nobel de Literatura 2024. Leitura densa, mas necessária.


Nise da Silveira — Imagens do Inconsciente (Alhambra, 1981) — o livro principal de Nise, onde ela analisa as obras dos internos à luz da psicologia junguiana. Difícil de encontrar novo, mas disponível em sebos.


Nise da Silveira — O Mundo das Imagens (Ática, 1992) — versão mais acessível do pensamento de Nise, com reproduções das pinturas do ateliê.


Clarissa Pinkola Estés — Mulheres que Correm com os Lobos (Rocco, 1994) — sobre o instinto feminino reprimido e o que acontece quando ele não encontra espaço para existir. Uma das principais referências de fundo deste texto.


Ovídio — Metamorfoses (Penguin Companhia, 2017, tradução de Domingos Lucas Dias) — a fonte clássica de Dafne e de centenas de outros mitos de transformação. A leitura do Livro I, onde Dafne aparece, é curta e vale muito.


Música

"Daphne" — Ryuichi Sakamoto (álbum async, 2017) — instrumental, atmosférico. A peça foi composta quando Sakamoto soube que tinha câncer; o título é explícito sobre a transformação como saída do sofrimento.


"Plant Life" — Zöe Johnston (trilha de vários usos) — menos óbvia, mas a letra sobre querer "se tornar algo que não sente" dialoga diretamente com o que Yeonghye articula.


"A Carne" — Elza Soares (álbum Do Cóccix até o Pescoço, 2002, composição de Marcelo Yuka) — talvez a música que mais diretamente dialoga com o que este texto tenta dizer. "A carne mais barata do mercado é a carne negra." O corpo feminino negro como mercadoria, como objeto de consumo — o que Dafne e Yeonghye e Adelina recusaram, cada uma à sua maneira.


"Como la Cigarra" — Mercedes Sosa (Argentina, 1973, composição de María Elena Walsh) — sobre ser destruída e ressurgir. "Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, sin embargo estoy aquí, resucitando." Não é sobre virar planta, mas é sobre a metamorfose como resposta à violência — e sobre a teimosia de continuar existindo apesar de tudo.


Xênia França — qualquer música do álbum Xênia França (2017) ou de Você Não Sabe Com Quem Tá Falando? (2019). Cantora baiana, Afro-brasileira, com uma voz e uma escrita que habitam exatamente o cruzamento entre o corpo, o sagrado, o feminino e a resistência que este texto tenta mapear. Ponto de entrada sugerido: "Minha Flor".


Imagens


Apolo e Dafne — Gian Lorenzo Bernini (1622–1625, Galleria Borghese, Roma) — a escultura mais famosa do mito. O que impressiona não é a fuga: é a expressão de Dafne no momento exato da transformação. Os dedos já viram galhos. Os pés já entram na terra. O rosto ainda é humano. É possível ver online em alta resolução no site da Galleria Borghese.


Obras de Adelina Gomes — parte do acervo está digitalizada e disponível no site do Museu da Imagem do Inconsciente: www.museuimageminconseciente.org.br. Vale a visita presencial se você estiver no Rio — o museu fica no campus da UNIRIO, no Engenho de Dentro, no mesmo lugar onde Adelina pintou.

O museu


Museu da Imagem do Inconsciente — Av. Romão Bezerra, s/n, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Fundado pela própria Nise da Silveira em 1952, guarda o maior acervo de arte produzida em contexto psiquiátrico do mundo — mais de 350.000 obras. A entrada é gratuita. O site tem parte do acervo digitalizado e agenda de atividades: www.museuimageminconseciente.org.br

 
 
 
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