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Os sentidos do confiar

O ser humano vive em sociedade, e de acordo com o estagirita Aristóteles, fora do grupo social ele é um deus ou uma besta. Não sendo nenhuma das duas coisas, é necessário pensar alguns ingredientes para criar, sustentar a vida ao lado dos semelhantes. Há todo um conjunto de sentimentos e pensamentos que podem auxiliar na tarefa de viver juntos, de conviver: tolerância, compreensão, respeito, boa vontade, confiança, algumas doses paquidérmicas de alegria, musicalidade e saber ouvir; em grande medida também é necessária uma indisposição à mentira, à hipocrisia, à exploração, à covardia e à violência em suas multifaces. Gostaria de focar a atenção na confiança. Essa palavra vem do latim confidere, com fide, com fé; mas, brincando um pouco com a língua, podemos inverter. Assim, confiar seria fiar com, tecer fios com alguém, junto a alguém. Acredito que possa ser compreendido como uma atitude de abertura e disponibilidade ao outro.



Os desconfiados que me desculpem, mas confiança é fundamental. Paráfrase, eu sei, mas acredito que serve para começar a tratar desse que é um assunto bem delicado.


Vale a pena pensar na confiança a partir de quatro sentidos iniciais:

O primeiro sentido do confiar se vincula ao nome próprio, trata-se de confiar em você mesmo, no seu potencial, nos seus projetos, na sua capacidade, confiar que você vai conseguir realizar algo, confiar em quem você é, confiar que aquilo que você é basta. Quando carecemos dessa confiança, surge a sensação de insuficiência. Como viver, ter projetos, criar, fantasiar e crescer crendo que não se é suficiente? De que te falta algo, de que nunca ninguém desejará você porque não há nada em você a desejar. Se o sujeito confia em si, então não se vê como um ser inteiro, mas fragmentado e frágil, menor, aos pedaços (ou seja, não está inteiro em qualquer coisa que faça), não pode se dar ao luxo de confiar porque apenas a possibilidade de traição o desfaz em pó, posto que é feito de nada. A palavra-chave para esse sentido é autoconfiança. Você é autoconfiante?

O segundo sentido se vincula ao outro, o de confiar sem vigilância, entregar sua confiança a alguém, no qual você pode confidenciar algo. O polo oposto dessa confiança – a não confiança – aparece na crença de que você pode ser traído a qualquer instante, seus segredos serão revelados, suas expectativas frustradas, suas posições ambicionadas. Mas somos seres sociais, será que é possível passar a vida sem confiar em alguém? Desconfiar genericamente de todos impede alguém de sofrer? e confiar, impede? Duas consequências subjetivas me parecem vir à tona, solidão e cansaço. Solidão hobbesiana, estamos todos juntos, mas qualquer um é seu inimigo potencial, isso leva ao isolamento, a construção de uma prisão de sensações e sentimentos que você guarda para si, afinal, revelar segredos é armar o outro, que é seu inimigo em potencial; o segundo é o próprio cansaço de construir muros e de vigiar as fronteiras. Em algum momento isso nos esgota, e a alternativa mais sensata é confiar. E a título de observação, só podemos nos entregar a alguém quando possuímos o primeiro sentido. Como confiar em alguém se você não confia nem em si mesmo?


O terceiro sentido é o confiar na natureza, ela tem suas regras e as ciências naturais vem destrinchando, desvelando-as gradativamente e produzindo vida e saberes sobre elas. Não me parece salutar querer ir contra as leis da natureza, por mais que as vezes elas pareçam sem sentido, como a morte prematura de alguém que amamos, por exemplo. Mas qual é nossa natureza? Temos uma? E nesse terceiro sentido, confiança está ligada a entendimento, dessa forma, se eu jogar uma moeda do alto de um edifício, devo esperar (acreditar, confiar) que ela vai cair, a não ser que alguém interrompa seu percurso, a pegue. Confiar na natureza é também conhece-la. Olha como isso pode ficar interessante: podemos confiar ou não quando nos lançamos à vida, pode haver alguém ou não para nos amparar, de toda forma se lançar mostra que não nos encolhemos diante das possibilidades. Penso nas potencialidades dessa atitude...

O quarto sentido é mais amplo, tem a ver com a confiança no totalmente outro, no transcendente. Talvez numa perspectiva holista, mística, confiamos na vida, nas possibilidades, no por vir, no devir, no universo infinito de alternativas diante de nós, naquilo que você não sabe e não vê, mas acredita. É dar o salto de liberdade no vazio, que no fundo me parece também uma face do confiar em si mesmo.


Quando você reconhece que é alguém em busca de si mesmo, cheio de certezas sobre algumas coisas, e dúvidas sobre outras, e às vezes, cheio de certezas e dúvidas sobre as mesmas coisas, ao mesmo tempo, então também é capaz de perceber que o outro vive esse processo da mesma forma, e o que deve esperar dele não pode ser maior do que espera de si mesmo. Saber sobre o confiar e aprender a confiar é um dos passos de viver, de estar lançado a sorte que é viver. Isso não o protege de sofrer, nem de sentir prazer, mas possibilita receber a passagem do tempo com leveza e forma consciente.


Por Thayná Trindade e Heitor Silva.


 
 
 

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