O que é trabalho Multidisciplinar em saúde?
- thaynatandrade
- 12 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
É possível profissionais de saúde privados realizarem trabalho multidisciplinar?

Trabalho multidisciplinar em saúde é quando profissionais de saúde de diferentes áreas trabalham conjuntamente em prol da construção de um projeto terapêutico singular. Alinhando as perspectivas profissionais de trabalho e construindo juntos uma linha de cuidado integral, que pense as diversas dimensões daquele sujeito.
Essa é a lógica de funcionamento do SUS. Com a atenção básica sendo a ordenadora do cuidado e porta de entrada do sistema de saúde, se identificam as necessidades daquele sujeito-usuário construindo, um projeto de cuidado para ele, uma clínica que compreenda as diversas dimensões constitutivas da existência humana e como elas inferem na saúde. A partir disso, os profissionais podem referenciar aquele usuário, para o acesso a atenção secundária por exemplo, realizar algum exame, ou solicitando matriciamento das equipes de apoio a saúde da família.
Enfim, essa é uma explicação básica de como funciona. Logicamente o SUS é muito mais complexo e devemos pensar os diversos entraves de gestão, políticos e de financiamento nessa relação. Mas, o questionamento aqui é o seguinte: podemos pensar o trabalho multidisciplinar em clinicas privadas? Pode a minha ginecologista conversar com a minha terapeuta? Pode a fisioterapeuta planejar o cuidado com a terapeuta ocupacional? pode minha educadora física trabalhar em conjunto com minha médica?
A resposta sem questionamento é sim, pode tanto quanto fazem, mas algumas questões estão implicadas aí, as principais são: a questão financeira, a lógica organizativa dos serviços privados e a formação dos profissionais de saúde, hegemonia do saber médico.
A questão financeira implica que a pessoa que está em busca de cuidados precisa pagar por esses profissionais separadamente. Obviamente em um pais desigual e dependente como o nosso, poucas são as pessoas que tem possibilidade de contratar mais de um serviço de saúde privado, - e racializando o debate, principalmente pessoas negras devido ao racismo estrutural- ou pagar planos de saúde, que raramente oferecem serviços integrados como essa proposta.
A segunda questão é a própria forma a qual os serviços de saúde privados estão organizados. Os serviços são distribuídos em clinicas particulares e consultórios, onde os profissionais de saúde são associados ou pequenos empresários de suas próprias clinicas. Os serviços são fragmentados e oferecidos por demanda, não por planejamento continuo e acompanhamento longitudinal.
A terceira questão é sobre a formação dos profissionais de saúde para atuarem de forma integrada, multidisciplinar. Poucas são as experiências de ofertas de cursos de graduação interdisciplinar em saúde. Hegemonicamente, os cursos de graduação são ofertados na lógica da fragmentação, após o processo de graduação os novos profissionais se destinam a ingressar em especializações cada dia mais específicas e tecnológicas. Além disso, podemos enquadrar nesse aspecto os corporativismos das profissões e dos sistemas conselhos.
A quarta questão é a concepção hegemônica biomédica de saúde, que concebe o corpo como um órgão passível ao ordenamento médico, elevando o saber médico a quase como detentor de todo conhecimento sobre o cuidado em saúde e o principal responsável pelos demais saberes, posicionando outros profissionais, como psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e educadores físicos, como secundários. Bônus: isso é reforçado pelos planos de saúde na medida em que só fornecem guia de acompanhamento terapêutico e de outros profissionais após um encaminhamento médico.
Outras problemáticas são possíveis de serem elencada, identidades reativas, falta de segurança dos profissionais, medo de concorrência, disputa de poder, medo de identificação de falhas, de perder o cliente, sigilo profissional. No fundo, o que está em discussão sobre a linha de tratamento adotado pelo outro e o que não está? Podem outros profissionais dialogarem sobre essas decisões? O cuidado multidisciplinar envolve algum grau de democracia e dialogo.
Concluindo, diante desses aspectos há diversos desafios a serem superados para execução de um trabalho multidisciplinar em saúde em serviços privados. Obviamente não estou defendendo aqui a preferência por serviços privados de saúde, a defesa de um sistema único de saúde universal, integral e equiname deve ser realizada todo dia, entretanto dada a realidade brasileira e a oferta de serviços de saúde privado, tendo eu própria como uma dessas profissionais atuantes, como podemos pensar a oferta de serviços de cuidado mais dinâmicos, integrais e integrados, associados a essa nova dinâmica de mundo complexo no qual vivemos em que os fenômenos de saúde são notoriamente interligados e múltiplos. Me questiono, porque não promovermos serviços mais qualificados, trabalhando juntamente com outros profissionais? Será possível transpormos esses desafios?




Comentários