Mulheres, mães, afeto e ausência: o retrato do cárcere.
- thaynatandrade
- 4 de set. de 2021
- 3 min de leitura

Dor. Saudade. Perda. Violência. Abandono. Perdão. Sentimentos revelados pelas lentes da fotógrafa Nana Moraes, em seu projeto artístico intitulado Travessia, parte da exposição Ausência, que reuniu fotos, cartas e patchworks* sobre mulheres encarceradas e a destruição que acontece no núcleo familiar com seus aprisionamentos.
A exposição foi inaugurada no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, durante a mesa redonda Olhares Femininos sobre o Cárcere, coordenada pela Alexandra Sanches, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz). O debate uniu o estudo científico de Maria do Carmo, uma das coordenadoras do estudo Nascer nas Prisões, com o olhar artístico de Nana Moraes, que revelou vidas estraçalhadas, dores profundas de abandono e rompimentos de laços familiares.
Já a pesquisadora Maria do Carmo comparou números das pesquisas Nascer nas Prisões e Nascer no Brasil para entender a realidade da mulher que dá a luz enquanto está presa. Segundo a pesquisadora, o número de mulheres encarceradas cresceu 698% nos últimos 16 anos e desse total, 80% são mães. Maria do Carmo revelou ainda que 60% dessas mulheres têm três ou mais filhos, o que pode gerar uma enorme devastação familiar no momento que esta mãe é presa. Segundo ela, “quando isso acontece, o filho não perde apenas ela. Perde também os irmãos, que muitas vezes são separados, indo parar em diferentes abrigos ou famílias”, completou.
As narrativas apontam a ruptura familiar das mães privadas de liberdade e mostram como o confinamento é diferente para homens e mulheres. Quando um homem que é pai é detido, a criança continua sob os cuidados da mãe na segurança de seu lar. Mas quando uma mãe é detida, o laço familiar se rompe instantaneamente: os filhos passam a morar com os avós, tios, vizinhos ou ficam à própria sorte. Diferentemente dos homens presos, que recebem visitas, as mulheres presas tendem a ser trocadas por seus companheiros ou companheiras e, ainda, são abandonadas pela família. Muitas dessas mulheres confessaram não receber notícias de seus filhos há muito tempo, sendo duplamente penalizadas.
Diante dessa realidade , Nana criou o projeto Travessia, com o objetivo de reaproximar mães de seus filhos. Das dezoito famílias do projeto, apenas seis deram o aval. Foram entregues kits com papel, caneta e envelopes às mães, e em seguida, foram tiradas as fotografias. As cartas e fotos seguiram pelos Correios. Ao final, Nana retornou com a imagem dos filhos e entregou para cada uma delas.
Ao todo, foram quinze visitas ao Presídio Nelson Hungria, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. Nana montou um cenário com um céu azul no fundo, reproduzindo a sensação mais próxima da liberdade possível, e fotografou cada uma das encarceradas. Desse modo, essas mulheres seriam apenas livres e seus filhos as veriam somente como mães.
Após a troca das cartas e fotografias, foi a vez de expressar essa experiência através do bordado de cobertores, toalhas e lençóis com fotos e palavras lidas com frequência nas mensagens. A maioria delas tinha perdido a guarda dos filhos ou descobriu que haviam sido oferecidos para adoção. Essas famílias foram rasgadas e descontruídas com a prisão, por isso, suas histórias foram costuradas e representadas em peças comuns que estão em todas as casas: o cobertor representa a DOR; a toalha de mesa, a SAUDADE; a cortina, a PERDA; o tapete, a VIOLÊNCIA, a toalha de banho representa o ABANDONO e a manta do sofá, o PERDÃO.
O projeto Travessia, da Nana Moraes, olhou para essas dores com muita sensibilidade e humanidade, e ajudou essas mulheres a se reconectarem com seus filhos.
*Patchwork: trabalho com retalhos; técnica de bordado com conteúdo político como uma forma de demonstrar resistência, inspirada nas Arpilleras.




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