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Endometriose e Saúde Mental da Mulher.

As questões relacionadas ao que é endometriose e como esse quadro afeta a vida das mulheres, no país e no mundo, estão em foco desde que a cantora Anitta deu um depoimento sobre o seu quadro de endometriose e a cirurgia que ela teria que realizar para conter a doença. É de suma importância quando uma pessoa com dimensão mundial traz um assunto de saúde à tona, porque oportuniza a sociedade colocar foco sobre uma questão muitas vezes invisibilizada, como a endometriose.


A princípio, toda doença pode causar um abalo mental nos sujeitos, mas a endometriose afeta todas as áreas da vida das mulheres, incluindo seu trabalho, vida social, relacionamentos íntimos, afetividade e autopercepção. A endometriose atinge cerca de 200 milhões de mulheres no mundo, uma a cada 10 mulheres, e as principais queixas são a dor crônica, o fluxo menstrual, dores de cabeça e a dificuldade para engravidar. Nem toda endometriose tem sintomas graves e nem todas são em graus elevados, mas vamos fazer um recorte aqui para poder tratar as questões mais intensas e gerais do adoecimento.


Uma observação se faz importante, sobre a diferença entre doença e adoecimento. Doença é uma condição clínica, algo objetivo determinado por um padrão científico normativo, como por exemplo, endometriose. Outra questão é adoecimento, que seria uma percepção subjetiva de um quadro clínico sobre o qual a pessoa está submetida, é como ela se sente diante da doença que ela tem. Assim, podemos avançar mais na questão da relação entre endometriose e saúde mental, partindo da ótica que falamos das percepções de um sujeito que experencia no seu corpo uma doença e constrói relações objetivas e simbólicas com ela.


A questão e sobre o imaginário que as doenças trazem sobre o corpo e o modo de vida que deve ser levado a partir do diagnóstico. Algumas doenças têm um estigma e imaginário mais fortes, como o câncer, AVC, entre outras. Mas especificamente falando em saúde da mulher, a endometriose está no campo das doenças que apenas fêmeas da espécie humana podem desenvolver.


O simbólico da doença, sua dimensão imaginária e carregada das relações sociais, pesam no que diz respeito as preconcepções do que seria ser mulher, o que é o feminino, ter um útero e principalmente o gestar. Em uma perspectiva machista patriarcal, se uma mulher não pode engravidar, por conta de uma condição clínica, ela automaticamente pode ser taxada como a "falha”, o corpo sem função. E isso não é só necessariamente sobre o discurso do masculino, mas muitas mulheres aderem a essa narrativa se sentindo deslocadas da função normal preconcebida da sua existência, deslocando o ser mãe, apenas para o ato de gestar e parir, quando na verdade isso significa algo muito maior, assim como o Ser mulher.


Outro ponto fundamental em relação a endometriose é a característica da dor. Aguda e muitas vezes crônica. É difícil conviver, seguir uma rotina de vida dita “normal” quando se está com dor. E muitas vezes, sendo uma espécie de dor invisibilizada e desmerecida pela sociedade, pelo normativo, como apenas uma cólica. A dor surge como barreira para as relações sociais, impedindo essas mulheres de conviver, viajar, atrapalhando as atividades educacionais e físicas. Estreitando o viver. O que pode causar vergonha, medo e angústia, e muito pouco acolhimento.


Outras questões fundamentais são o apoio social, a importância da internet e de ativistas, a vida sexual dificultada pela dor, uso de anticoncepcionais, redução da libido. Mas, um aspecto importante é a relação da endometriose em mulheres negras. Não encontrei estudos significativos que relacionem a raça e a endometriose. A maioria das pesquisas aborda mulheres brancas ou não identifica raça, classificando mulheres como um todo objetivo sem relações objetivas de pertencimento e identidade, o que nos faz pensar as implicações do racismo estrutural na formulação das pesquisas e até no diagnóstico de endometriose em mulheres negras, posto os dados de as mulheres negras terem menos acesso a saúde e serem classificadas violentamente como corpos que aguentam mais a dor, portanto invisibilizadas, silenciadas e animalizadas.


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